Num dia cinzento, frio e chuvoso (em perfeita sintonia, de resto, com o estado de espírito coletivo) meia dúzia de gatos pingados desceram hoje à rua para festejar mais uma aniversário do 25 de abril. Já todos estamos mais do que acostumados a este folclore que se repete ano após ano. Mas haverá alguma coisa para festejar? A chamada Revolução dos Cravos dirá certamente muito pouco aos desempregados, aos endividados, aos que não conseguem constituir família, aos sem-abrigo (que têm aumentado exponencialmente), aos jovens (cuja grande maioria ignora o real significado da data), aos que vivem abaixo do limiar da pobreza (e são dois milhões), a todos os que, em suma, não têm quaisquer perspetivas de futuro num país que caminha a passos largos para o precipício.
Face à cada vez maior indiferença do povo em relação à "abrilada", a brigada do reumático composta por alguns dos "capitães de abril" (embora muitos tenham sido entretanto promovidos ou se tenham autopromovido), pelo Bochehas e pelo Parvo Alegre, decidiram, movidos por uma clara ânsia de protagonismo e por um delírio demagógico, não abrilhantar as cerimónias oficiais com a sua presença. O que, previsivelmente, levantou enorme celeuma e deu azo a vários leituras por parte de comentadores televisivos e também aos de tasca.
Pois a mim nem imaginam o abalo que me deu ao pífaro essa corja não ter dado um ar da sua graça. Já era tempo dessa gente perceber, de uma vez por todas, que o 25 de abril não é uma coutada privada de ninguém. Tem autores, mas não tem dono. No caso dos militares em questão, fizeram o vosso golpezinho de estado e (quase) toda a gente já vos agradeceu por isso. Derrubaram um regime quase tão caduco como vocês são hoje em dia. Parabéns à prima! Querem uma estátua, é? Probendas talvez? Acham realmente que fizeram um bom trabalho? Pois eu acho que se limitaram a abrir a tampa do esgoto. Podem ter enxutado algumas das ratazanas que lá moravam mas logo outras (e em muito maior número entraram). Podem, na melhor da hipóteses, ter aparado alguma erva daninha. Mas não a cortaram pela raiz. E, como todos sabemos, isso é garantia de que ela voltará a crescer. Se estas minhas metáforas não forem suficientemente claras, passo a explicar da mesma forma que o faria a um puto ranhoso de 5 anos e com mongolismo: O 25 de abril foi bom; o problema foi toda a trampa (e foi muita!) que veio a seguir! Podem chamar-me reacionário, Velho do Restelo, blasfemo, a puta que vos pariu a todos. Estou-me perfeitamente a cagar! E sabem porquê? Porque graças à vossa revoluçãozinha da tanga, existe uma coisa muito gira chamada liberdade de expressão. É verdade que, durante a ditadura a malta não podia fala à vontade. M hoje, que todos falam muito, pouco acertam. Assistimos à liberalização do disparate. À democratização da estutidez. Basta atentar às alarves perorações de Vasco Lourenço, esse bravo guardião da democracia e da liberdade, a propósito da ausência da Associação 25 de Abril na sessão solene que este ano regressou ao Parlamento. Diz essa besta quadrada que o atual governo (legítimo porque democraticamente eleito, goste-se ou não) não corresponde aos ideais de abril. Traduzindo: é um governo fascizoide que faz perigar a democracia e deve ser rapidamente derrubado. Também diz essa cavalgadura que "os eleitos não representam a sociedade portuguesa". Não podia esse bronco estar mais enganado. A classe politica é um reflexo cristalino do povo que a elege. E, já agora, qual foi a parte de "democracia representativa" que o Vasquinho não percebeu ainda? Quer que lhe faça um desenho, é?
Isto tudo depois de, semanas atrás, esse outro revolucionário de pacotilha com nome de personagem de dramalhão shakespeariano ter exortado publicamente as forças armadas a pegarem nas chaimites e fazerem novo golpe de estado.
Isto tudo depois de, semanas atrás, esse outro revolucionário de pacotilha com nome de personagem de dramalhão shakespeariano ter exortado publicamente as forças armadas a pegarem nas chaimites e fazerem novo golpe de estado.
Nada disto me ralaria se, tal como eu, ninguém ligasse peva ao que essa cambada de velhos senis papagueia. Parece que comem merda à pazada para depois a virem vomitar para a frente dos microfones que alguns idiotas insistem em pôr-lhes à frente. O problema é que, entre esta carneirada mole cuja vida continua a gravitar em torno dos três F (Fátima, futebol e Facebook), há sempre um punhado de atrasados mentais que, ocasionalmente, levantam os cornos da palha e decidem fazer uma merdas engraçadas para as televisões verem. É assim que alguns bandalhos que ninguém sabe ao certo quem são nem o que querem resolveram, a coberto da data de hoje, reocupar uma escola primária na Fontinha (Porto) de onde haviam sido corridos à bastonada há poucos dias. Porque, para grande parte desta cambada, liberdade é fazer tudo o que lhe dâ na real gana e quem está mal que se mude. As leis só se aplicam aos otários. É este o civismo que reina hoje em dia. Viva liberdade, manos!
A triste verdade, doa a quem doer, é que, ao cabo de quase quatro décadas a viver nesta protodemocracia da treta, Portugal continua a não ser um país mas sim um sítio. E, ainda por cima, cada vez mais mal frequentado. Este jardim à beira-mar plantado definha a cada dia. Como definham e apodrecem o cravos vermelhos e tudo aquilo que representam. Abram os olhos! Acordem! Portugal continua a ser um país miserável, atrasado, corrupto, injusto e sem futuro de onde só apetece fugir. Como podem falar em democracia, nos valores de abril e nessas paneleirices todas quando a justiça só funciona para os ricos; quando a educação forma ignorantes e desempregados crónicos;quando se fecham maternidades e doentes morrem à espera de uma simples cirurgia; quando os assalariados continuam a receber mal e porcamente e continuam a ser espoliados dos seus poucos direitos; quando as pessoas decentes se trancam em casa porque as ruas foram tomadas por todo o tipo de escumalha; quanda essa mesma escumalha parasita um estado social falido sem nunca ter descontado um tusto para a Segurança Social; quando, depois de uma vida inteira de descontos, os reformados e pensionistas mal conseguem sobreviver; onde os desempregados são tratados pior do que delinquentes; quando há fome escondida mas também há mais telemóveis do que habitantes;quando, por mais mérito que tenhas, nunca chegarás a lado nenhum sem uma boa "cunha"; quando os políticos mentem e traem impunemente o povo que neles acreditou, etc, etc?
Era este o país que os autores da "abrilada" imaginavam? Estão realmente orgulhosos? Bem podem limpar as mãos à parede!
Se é preciso outro 25 de abril? Sim, mas em moldes muito diferentes do primeiro. Desta vez enfiem os cravinhos no cu e façam a coisa como deve de ser. Sem militares, de preferência. E que o novo regime assente numa nova sacrossanta trindade: Ordem, Progresso e Justiça para todos! Sem isso, nada feito.
Se é preciso outro 25 de abril? Sim, mas em moldes muito diferentes do primeiro. Desta vez enfiem os cravinhos no cu e façam a coisa como deve de ser. Sem militares, de preferência. E que o novo regime assente numa nova sacrossanta trindade: Ordem, Progresso e Justiça para todos! Sem isso, nada feito.






